Linkdin RSS Feed

Meu Livro


Eis que termino minha noite cantando “Happiness is a warm gun” com um junkie-maluco-beatnik da Augusta. É que eu havia acabado de atravessar a Avenida Paulista, e mal começava a preparar minhas narinas para sentir o cheiro da decadência que estava por vir do sentindo Centro, quando sou interpelada:

- E aí Beatles, não quer comprar um pouco de arte hoje?

Seu nome é Verdi, igual ao compositor de óperas, Giuseppe Verdi, ele me diz. Aliás, ele me diz várias coisas. Para ele, não falta o que dizer e sim quem escutar. Retira do saco de lixo que carrega nas costas vários panfletos e revistas. Pega uma revista Veja de 2007 para me contar das barbaridades que estão acontecendo no Planalto Central. Conta-me que ama a filha e que faz anos que não a vê, mas que morre de vontade de juntar uma grana para visitá-la na Argentina. Conta-me que ama as drogas, que se viciou em crack e que, se tivesse grana, já estaria morto porque iria fumar pedra todo dia. Confessa-me inclusive pequenos furtos que cometeu em uma livraria da região, a fortuna que confiscou: um Box de DVDs do Led Zeppelin e o outro da Janis Joplin. Ele também me diz que não sabe se prefere os Beatles aos Rolling Stones e, pra fugir dessa pergunta capciosa, escolhe Jimi Hendrix como o seu “deus”.

Conheci Verdi, o “beatnik” velho e incansável, em uma noite de quinta-feira no canteiro do Center 3. Só pude conhecê-lo e ouvir suas histórias e opiniões graças ao meu Trabalho de Conclusão de Curso. O projeto é um livro-reportagem que pretende montar um retrato da Rua Augusta, com uma forma narrativa que sugere o “flanar” por seu asfalto, e através de perfis de desconhecidos e pessoas que não estão nos jornais. Nessa “brincadeira” já colecionei histórias dos mais variados tipos que já andaram pelas calçadas augustianas, e pude chegar a uma conclusão: eu sempre me apaixono um pouco por cada entrevistado. É inevitável ouvir sem se “contaminar”, a sinceridade daquelas pessoas ao revelarem para mim, uma desconhecida, as dores, os amores e as alegrias de suas vidas. Eu sou um pouquinho de cada entrevistado meu. Se não sou, gostaria de ser. Eu sou a audácia e o desajuste do Verdi. Também sou persistente e orgulhosa como a Nair, cabeleireira do salão Giva. Sou sonhadora e um pouco utópica como o Seu Milton, farmacêutico da Drogaria Bela Vista. Sou notívaga e boêmia, igual aos meninos da banda Rock Rocket. Gostaria de ser centrada como o Lin, da relojoaria, mas também sou espontânea como o Marquinho, morador de rua.

Sou um pouco de tudo o que encontrei subindo e descendo as ladeiras augustianas na busca por capturar esse único, e talvez efêmero, momento. Um frame no qual, da cadela de madame à princesinha desdentada passeiam por suas calçadas de glórias passadas, e pelo asfalto com marcas de sangue, suor e cerveja.

Você confere um aperitivo de Augusta – Rua de mão dupla aqui: facebook.com/augustianas e também pode ver fotos e uma resenha do projeto no meu portfolio.